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DESEJO MATERNO E PULSÃO DE VIDA/MORTE (1)

MOTHER WISH AND LIFE/DEATH INSTINCT

Gina Tamburrino (2)

Este artigo aborda o caso clínico de um menino de 9 anos, adotado, que chega à análise com sintomas de anorexia. A história dos pais, em especial a materna, permite estabelecer hipóteses para a compreensão da construção do sintoma da criança.

Este texto também estabelece relações do sintoma da anorexia com o mito do “deus do vinho”, apontando a necessidade da criança em questão, buscar a filiação do espírito mais do que da carne.

Palavras Chaves: anorexia, desejo, contratransferência, pulsão de morte.

This article treats a clinical case of a 9-year-old boy, an adopted child, who is brought to analysis having symptoms of anorexia. The history of parents, especially on the mother side, allows for the establishment of hypothesis for the comprehension of the child’s symptom construction.

This text also establishes relations between the symptom of anorexia and the “god of wine” myth, pointing out to the necessity of the focused child to search for the filiation of the spirit instead the one of flesh.

Key Words: anorexia, wish, counter transference, death instinct.

“O Senhor Deus formou, pois,
o homem do barro da terra,
e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida
e o homem se tornou um ser vivente”.
(Gênese, p. 50)

Uma colega de consultório recebe um telefonema perguntando por um terapeuta infantil; antes que alguma resposta pudesse ser articulada, a mulher ao telefone inicia um relato aflito a respeito do filho que se encontrava “com anorexia”. Assim chegou Luiz Augusto...

Ao ser comunicada pela colega, senti um estranho mal estar; medo e repulsa invadiram meu corpo e minha mente, mas propus-me a telefonar.

A voz de Magda era estridente, ela gritava ao telefone e parecia-me enlouquecida; a escuta faz surgir a imagem de uma mulher pouco esclarecida e sem muita cultura. Dizia-me que ela já estava mais calma, o que me causou espanto, e que não precisava mais marcar a consulta porque o filho, que não estava se alimentando, já apresentava uma melhora considerável, e que também havia marcado uma consulta médica. Coloquei-me à disposição e disse-lhe que, ainda assim, eu pensava que uma conversa poderia ajudá-la, mas Magda preferiu esperar, e então desligou. Senti-me tonta com toda a gritaria e com o desespero, paradoxal ao “desinteresse” pela consulta.

Dias depois Magda torna a telefonar, agora deseja marcar a consulta. Solicito, então, que também o pai esteja presente; “impossível” – disse-me ela – “meu marido trabalha muito”.

Apesar do considerável atraso, Sr. Augusto compareceu com a esposa para a consulta, embora tenha deixado claro desde o início da sessão que não acreditava em psicólogos, mas que diante da preocupação que estavam vivendo, achou pertinente o pedido da esposa e achou que deveriam procurar por um, então ele veio. Distribuiu-me olhares desconfiados em meio a sorrisos debochados durante toda a consulta, mas ficou e não apresentou pressa em ir-se embora, ignorou o tempo da consulta e mesmo seu atraso; dificultou o encerramento da entrevista.

Ao contrário da imagem que havia me invadido durante a primeira conversa com Magda ao telefone, ela mostrou-se uma mulher inteligente, que ocupava um cargo interessante na mesma empresa em que o marido trabalhava; apesar da ótima aparência, entretanto, parecia haver alguma dissociação que desde ali já aparecia; nada que eu pudesse compreender ainda. O real “da aparência” não combinava com o que me era despertado nas conversas com o casal.

Magda falava que estava muito preocupada com o filho, mas em nenhum momento chorava ou se emocionava com as situações que trazia; “falava” de uma intensidade de preocupação e de sofrimento; literalmente ela narrava sua preocupação sem qualquer emoção.

O pai, quando vinha, ouvia muito e falava bem pouco; afrontava minhas observações que se referiam ao mundo psíquico e afetivo do filho, e deles no lugar de pais, mostrando-me o quanto tais questões lhe pareciam bobagens, que como tais, não poderiam causar um problema como aquele que o filho enfrentava.

Ambos apresentavam uma atitude ambivalente, falando da falta de necessidade de estarem ali, ao mesmo tempo em que faziam exatamente o contrário – eles vinham! No entanto, dirigiam-se muitas vezes a mim como se eu os houvesse procurado, ou como se os quisesse convencer de algo. Pareciam deixar o desejo de tratar o filho comigo - assim eu sentia. Quando eu tentava marcar um horário com um deles, principalmente com o pai, geralmente a mãe explodia em ira acusando-me de incompreensão: “O que você quer que a gente faça, a gente tem que trabalhar, desde que o Luiz Augusto adoeceu a gente não faz outra coisa!! Daqui a pouco eu perco o emprego!!”.

Nestes momentos, sempre me surgia o pensamento: “Mas o filho é de vocês”. Eu guardava esses sentimentos e pensamentos que brotavam em mim; algo, para além das palavras dessa mãe, chegava até mim formulando um grande mal estar mental. Confesso que me era bastante difícil conter a avalanche de “respostas” que me assaltavam, pelo ódio que as falas me despertavam, mas era o único modo de tentar construir um trabalho e levá-lo adiante. Era preciso buscar uma compreensão solitária e aguardar; sabia que aqueles pensamentos e sentimentos não eram qualquer coisa; aclamavam por uma compreensão profunda.

Nestas situações eu sentia que eles brigavam comigo porque precisavam brigar com alguém pelo que lhes estava acontecendo. Afinal, alguém tinha que ser culpado!!! Era muito difícil não reagir, e isso só me era possível quando eu podia compreender, num nível interno, que eles estavam muito desesperados se perguntando o que eles haviam feito de errado, sem encontrar qualquer resposta que desse conta de “parar” o que estava lhes acontecendo. Por isto, era necessário que eu pudesse admitir para eu mesma, mentalmente, o quanto eu os odiava com todas aquelas desconfianças a respeito da compreensão que eu cuidadosamente ia tecendo na escuta com eles, ou seja, não é somente o paciente que odeia, como diz Winnicott – algo possível de ser utilizado de forma benéfica quando o analista se permite ser invadido pelos sentimentos contratransferenciais (3).

Em momentos como este, o contato com os meus próprios sentimentos, com meu umbral de sensibilidade como diria Sérvulo; sentimentos estes, despertados na experiência com os pais de Luiz Augusto, mas não só em reação a estes, pois era preciso considerar os meus próprios sentimentos, foram de fundamental importância. Admitir o quanto eu me sentia afetada pelas falas, atitudes e gestos, me possibilitou enfrentar e suportar em certa medida as perturbações desse trabalho. Compreendo isto levando em consideração que no campo em que o fenômeno da contratransferência se manifesta, um analista não deve apenas se tornar um domador de seus próprios sentimentos, mas colocá-lo a serviço da análise, como um precioso instrumento a ser utilizado, um verdadeiro dispositivo analítico!

Penso que, a tentativa em tornar inócua a afetação que o analista sofre em contato com seus pacientes, torna-o mais vulnerável a um uso inadequado do que emerge na contratransferência, ou seja, o risco de atuação por parte do analista e do próprio paciente acabam sendo muito maior. Se há algo que o analista deva desvencilhar-se é de seu medo em lidar com seus sentimentos, admiti-los para que esses possam ser colocados a serviço da análise. Somente o contato do analista com tais sentimentos, a análise destes, poderão possibilitar o seu “bom uso”, sendo estes um material legítimo ao espaço analítico. Há situações, como revela Winnicott, em que o sentimento do analista em relação ao paciente, precisa ser reconhecido pelo próprio analista, e, algumas vezes, “só isto”, pode sustentar ou mudar o rumo da análise. Na medida em que o analista consegue perceber o quanto de seu próprio ódio é despertado e comparece no campo analítico, cria-se um lugar mental próprio que pode acolhê-lo. Caso contrário, ele irá como um torpedo na direção do paciente.

Creio que seja esclarecedor considerar algo a respeito do pensamento de Winnicott sobre a contratransferência, muito bem interpretado, a meu ver, por Sérvulo Figueira (1996):

“A lógica e a ética para a contratransferência como um todo e também para a relação dos pais com os filhos é simples: se a parte da relação que tem o poder de direcionar sutilmente o processo (analista, mãe) não tomar contato com o que sente, fantasia e deseja a partir do contato com a parte que tem menos poder (analisando, filho), o risco de atuações de ambas as partes que venham a estruturar o processo de modo prejudicial aumenta consideravelmente. Trata-se, portanto, de uma visão radical: é a capacidade para transparência e franqueza do analista e da mãe no contato consigo próprios e no lidar com experiências, impulsos, desejos de conteúdo perturbador que constitui, em última instância, a maior proteção para o paciente e para a criança. Mas o exercício desta transparência esbarra com os superegos do analista (o técnico, etc.): certos sentimentos, impulsos, idéias, possibilidades etc. são simplesmente inaceitáveis”.

Assim, o trabalho de psicodiagnóstico prosseguiu: o pai mostrava-se bastante distante e ausente, a mãe procurava mostrar-se tranqüila, mas havia uma agressividade a flor da pele. Ela me dizia que utilizava todos os recursos; benzia o filho, levava-o a centros espíritas, acendia velas para o anjo da guarda, colocava rosas brancas em seu quarto... Enfim, buscava fazer tudo o que pudesse sustentar “seu desejo” de exorcizar o mal que habitava “para além do filho”.

Numa sessão onde ambos os pais estavam presentes, a mãe queixou-se da pouca afetividade do pai. Havia acontecido um fato específico onde o filho deveria ter realizado uma endoscopia e recusou-se. Isto deixou o pai furioso.

Luiz Augusto havia me contado numa sessão anterior a esta entrevista, que o pai o havia levado até o laboratório para a endoscopia, mas que chegando lá ele disse ao pai: “Não vou fazer isto de jeito nenhum”.

Diante do comentário da mãe, o pai olhou-me incrédulo, e declarou: “De fato, fiquei mesmo furioso com ele, se ele não queria submeter-se ao exame deveria ter me dito antes, assim eu não teria perdido tempo”.

Perguntei-lhe então, se ele podia imaginar o medo que seu filho, possivelmente, teria sentido. “Não estou falando disso, se ele não queria submeter-se ao exame, ele deveria ter me dito” – respondeu o pai irritado.

“O senhor não acha possível que talvez ele estivesse se esforçando para não decepcioná-lo? E que ele tentou conduzir a situação até onde suportou?” – perguntei-lhe. Nesse ponto, a mãe interrompeu a reflexão do pai com uma observação: “Sabe, eu sou mais compreensiva nesse sentido; fiquei com o coração apertado, acendi uma vela e fiquei rezando para dar tudo certo, só que eu não fiz corpo mole”.

Embora eu estivesse prestando atenção ao que a mãe estava me dizendo, foi a comunicação não-verbal que se revelou mais próxima de um sentido para o que estava acontecendo naquele momento. Apesar da fala de Magda expressar afeto, mais uma vez não correspondia ao que “eu sentia” em meu contato com ela; suas palavras afetivas eram vazias de afeto. Diante disso, resolvi continuar trabalhando com a fala do pai, que, apesar de trazer palavras duras, eram cheias de afeto e emoção – havia raiva, indignação, medo, confusão de sentimentos, havia dor.

Então, fiz uma nova pergunta ao pai: Sr. Augusto (pai e filho possuem o mesmo nome) quando o senhor era criança, lembra-se de ter passado por alguma situação semelhante?

A mãe interferiu novamente, antes que o pai respondesse: “Como já dissemos para você, nossa infância, tanto a minha como a do Augusto, não foi como é a vida de nossos filhos (eles tem uma filha 11 meses mais jovem do que o filho), o pai de Augusto nem dialogava com ele”.

Então, ignorando a colocação da esposa ele me faz uma pergunta; estava indignado: “Você acha que eu não fiquei preocupado com o exame que ele ia fazer? Você acha que é fácil?” – disse o pai indignado, olhando-me como se eu o estivesse acusando de frieza.

“E o senhor disse isto à ele ?” – perguntei-lhe

“Não, ele não disse” – respondeu a mãe.

“Então o senhor está me dizendo que sentiu muita preocupação pelo seu filho, mas que não pôde admitir isso a ele, e até onde posso entender, o senhor e ele ficaram sofrendo porque não puderam deixar aparecer o sentimento. Sr. Augusto, eu percebo que isto é comum de acontecer na relação de vocês, pelo que têm me contado. Imagino que o senhor gostaria de ter dito ao seu filho o quanto se sentia preocupado com o fato dele passar por um exame tão incômodo, que o senhor também sentia medo, mas que poderia ajudá-lo, ficando ali com ele... mas parece que o senhor, nessas ocasiões age como se fosse frio, e pelo que posso ver, está longe disso...”.

“O médico disse que poderia sedá-lo...” – disse o pai.

“Sim? E por quê não o fizeram?” – perguntei.

“Porque o Luiz Augusto não quis”. – respondeu o pai irritado.

“Mas a esta altura você já estava bravo com ele, e ele já estava mais assustado ainda...” - observou a mãe em tom de acusação.

“Se eu estou entendendo bem, o senhor esperou que o Luiz Augusto tomasse a decisão!”. – disse eu, ao pai.

“Eu acho que ele deve tomar sim a decisão”. – retrucou Sr. Augusto.

“Bem, então o senhor pensa que ele tem condições de tomar decisões dessa ordem, sobre o que é melhor para ele... É isto?” (ele fica em silêncio).

Faço então o seguinte comentário: “Eu penso, Sr. Augusto, que ele estava assustado e precisava de alguém que o levasse; não seria natural na idade dele?”.

O pai continuou num silêncio angustiado.

A mãe disse: “É que o Augusto sempre teve que tomar decisões muito cedo”.

O clima estava tenso, e, em cada fala da mãe, a mim parecia que algo se quebrava; ela parecia interromper algo que estava se encaminhando para um contato emocional. O pai de Luiz Augusto, em momentos como estes, estava muito mais sintonizado com “uma dor” sem nome, possivelmente ligada ao sintoma de seu filho (anorexia), enquanto a mãe estava sintonizada com algo de uma concretude assustadora, de difícil acesso. Penso que era o modo como conseguia se proteger da dor sem contorno que a ameaçava, do fantasma que a rondava...

Perguntei então: “O senhor tem medo de mostrar seus sentimentos para seu filho? (silêncio). Diante do silêncio sofrido de Augusto, disse a ele que “isto, muito possivelmente, teria ajudado muito ao seu filho; Luiz Augusto não pôde conhecer a sua preocupação, o que lhe teria dado uma referência de seu sentimento por ele naquele momento. Penso que o senhor estava tão assustado quanto o seu filho, e que talvez tenha sido um alívio, para o senhor também, vir embora sem realizar o exame, mas o senhor se obrigou a ser forte, assim como seu filho. Talvez o senhor sinta que o afeto possa estragar algo”. (silêncio).

Numa outra sessão a mãe narrou melhor sobre a infância de ambos; contou-me que passaram por inúmeras dificuldades e que haviam enfrentado muitos sacrifícios, sendo que o lugar que ocupavam naquele momento da vida havia sido conquistado com muito trabalho e sofrimento. O fato de terem conseguido sair da pobreza é um aspecto importante na história desse casal, e isso se refletia de forma bastante intensa no cuidado dos filhos. Ambos ajudavam significativamente suas famílias de origem, materialmente!

Havia um conflito entre o casal que se expressava no tempo que a mãe dedicava aos filhos; o pai cobrava de forma veemente que a mãe deixasse de trabalhar para cuidar mais deles, e esta, por sua vez, recusava-se, apelando para os compromissos materiais que não poderia deixar de cumprir, sendo-lhe necessário continuar ganhando seu próprio dinheiro. Augusto aproveitou várias vezes o espaço analítico para reivindicar isto à esposa e para fazer-lhe ameaças também, dizendo-lhe que se um dia acontecesse algo errado aos filhos, ele a culparia; algo bastante pesado! Ficou claro que a mãe mostrava verdadeiro horror em ficar em casa e à disposição das crianças apenas, e que o pai temia esta ausência materna.

As sessões com Luiz Augusto eram bastante intensas. Ele vinha muito ansioso, demonstrava isto nas brincadeiras, no manuseio dos brinquedos, deixando cair as coisas, impacientando-se rapidamente com uma brincadeira. Também apresentava desatenção nos jogos, não se importava em perder, e isto me surpreendia. Era bom em jogos de memória, mas podia perder a sessão inteira sem entrar em contato com a menor raiva. Parecia não enxergar o jogo; o que ficava pensando, ou sentindo? Mudava as regras constantemente, talvez um jeito velado de expressar a raiva. Eu o acompanhava, mas mesmo assim ele perdia.

No início das sessões, quando terminou o psicodiagnóstico e iniciamos a análise, Luiz Augusto desenhava; passou um período desenhando bruxas, seguidos de comentários de como se sentia injustiçado e incompreendido. Pensei que talvez estivesse se referindo à sua relação materna, uma relação que me parecia enigmática, da qual eu não conseguia ter muita compreensão, um enigma que brotava a cada nova bruxa que Luiz Augusto desenhava.

Após algum tempo começou a brincar com massa de modelar. Inventou um boneco disforme chamado Mal Animado, falava-me que era de um desenho que ele gostava de assistir.

Aquele boneco disforme me contava sobre “um Ser” que podia se transformar em qualquer coisa, não tinha uma forma; Ele era Mal Animado!

Suas brincadeiras eram que essa massa disforme queria ser legal, mas ela atacava toda a família. Ele utilizava os bonecos de pano que compunham uma família (mãe, pai, um menino, uma menina, um bebê, a avó, o avô, uma empregada, cachorro, gato) para brigarem com o Mal Animado. O Mal Animado fazia coisas com esta família, as quais Luiz Augusto chamava de brincadeiras, onde ela machucava e destruía; o contrário também acontecia, ou seja, a família machucava o Mal Animado.

As cenas me causavam mal-estar; cenas de morte, de tortura; ele, no entanto, parecia divertir-se muito, ria com muita facilidade – um pequeno tiranozinho desvelou-se à minha frente. Quando eu lhe perguntava o que estava acontecendo, invariavelmente Luiz Augusto me respondia que estavam “brincando”. Aquelas cenas sádicas eram brincadeiras, apenas brincadeiras!! Assim, o mal estar que eu sentia com os pais, também se revelava muito presente nas sessões com Luiz Augusto. Eu me surpreendia com o meu mal-estar despertado diante dessas brincadeiras; invariavelmente, quando ele escolhia “esse jogo” meu mal estar principiava dali.

Numa nova entrevista com os pais de Luiz Augusto, após estas sessões com o Mal Animado, tentei buscar um pouco de compreensão para aquelas cenas. O pai ficou incomodado com a investigação que eu tentava encaminhar. Parece que houve uma convergência entre minha dúvida, que dizia respeito a existência de um lado perverso de Luiz Augusto, e uma fantasia do pai, de que seu filho pudesse ter algo ruim dentro de si. Mas, esta fantasia teria sido construída a partir de que?

A princípio pensei que Luiz Augusto pudesse estar se sentindo hostilizado e que me contava isto através de suas brincadeiras tirânicas, mas com o tempo passei a considerar que ele poderia também ser o próprio tirano, pois os papéis se invertiam; ora o Mal Animado apanhava, ora algum personagem apanhava do Mal Animado, e ainda havia momentos em que a própria família lutava entre si; pais contra filhos, netos contra avós, mortes, espancamentos..., como nos desenhos animados em que o personagem, depois de ser pisoteado, ou cair de um penhasco, reaparece ileso.

Esses episódios podem ser contemplados como um tipo de sonho da dupla se considerarmos momentos em que Luiz Augusto encontrava espaço para sonhar seus horrores em busca de sentido. Entretanto, somente podia fazê-lo com minha ajuda; eu funcionava como uma espécie de coadjuvante e ficava com a parte que deveria sentir os afetos, enquanto ele ficava com a parte que deveria trazer as representações através dos personagens. A angústia sentida pela analista era captada na via contratransferencial e afetava seu corpo e sua mente. A angústia do paciente era cindida e projetada nos objetos (brinquedos) e personagens, especialmente no “terrível mal-animado”; sentido na via contratransferencial da analista como angústia, medo, ódio, excesso...(4)

Assisti nessa época, algumas cenas de Luiz Augusto junto à empregada da casa; esta era como uma pessoa da família, havia criado Luiz Augusto e a irmã. Numa dessas cenas eu “não pude” deixar de interferir - quando Luiz Augusto abandonou a empregada na sala de espera de meu consultório, sem a chave de casa -; solicitei-lhe que voltasse e entregasse a chave a ela.

Só mais tarde quando o segredo da família foi trazido para as sessões, é que pude começar a compreender porque o pai poderia imaginar que seu filho pudesse conter dentro de si um lado mau. Também comecei a ter notícias de meu mal estar junto aos pais e junto à criança.

Num dado momento da análise, o pai de Luiz Augusto tirou férias e veio acompanhá-lo numa sessão. Quando fui à sala de espera chamar meu paciente, o pai solicitou-me para entrar e falar comigo. Disse-lhe que poderíamos marcar um horário e pedi à criança que entrasse. No entanto, o pai ignorou a minha observação, levantou-se da cadeira, seguindo corredor afora até a sala de atendimento e entrou junto ao filho.

Luiz Augusto sentou-se junto à escrivaninha, onde costumava colocar os brinquedos e brincar, o pai tomou a cadeira à minha frente e começou a falar, visivelmente angustiado. Luiz Augusto apenas ouviu, estava assustado e com medo, ficou o tempo todo calado e apreensivo. Eu sentia uma mistura de medo, culpa; um mal estar psíquico e físico acompanhou-me durante toda a sessão.

Esther Bick (1990, p. 189) observa que o efeito da contratransferêncioa sobre o analista em análises infantis é bem mais intenso; também observa que há grande chance do analista de crianças deparar-se com as próprias identificações inconscientes; assim, ele “pode identificar-se com a criança contra os pais, ou com os pais contra a criança, ou com uma atitude protetora dos pais em relação à criança”. E por último, ainda compondo esta série de considerações sobre a afetação do analista de crianças, assegura que as “projeções violentas e concretas da criança para dentro do analista podem ser difíceis de conter. Também o sofrimento da criança tende a evocar os sentimentos parentais do analista”.

O pai de Luiz Augusto começou a falar da angústia que vinha sentindo; disse que tirou férias justamente para poder cuidar do filho, justamente aquele pai sem tempo... Senti receber, pela primeira vez, um pedido de ajuda de Sr. Augusto.

Luiz Augusto havia voltado a alimentar-se, mas não podia aprender na escola, estava indo muito mal. Engolia comida, mas não engolia letras; estava prestes a ser reprovado na escola, que por sinal era bastante exigente, e, apesar de buscar acolher a “doença” de Luiz Augusto, não poderia deixar passar em branco seu baixo rendimento. Ele havia deixado de ir à escola durante o período de crise de sua anorexia, pois passava mal e chegava a desmaiar, além de sentir-se inseguro fora de casa.

Sr. Augusto contou que estava se sentindo desnorteado com o fato do filho estar calado, disse que queria saber o que estava acontecendo e que queria poder ajudar o filho, que queria saber onde estava o erro e ter a oportunidade de repará-lo, mas que o filho não vinha lhe dando a menor chance. Continuou dizendo que tudo o que ele tinha feito a vida inteira passou a não ter mais sentido, pois se ele não podia ajudar o filho, então para que construir um patrimônio, pois era para eles que tudo estava sendo feito. Disse que quando questionava o filho, este se calava e as lágrimas lhe caiam livremente, e ele - pai - se desesperava.

Sua fala foi intensa e emocionada; sua dor estava sendo depositada ali, ele estava verdadeiramente desnorteado. Então, voltei-me para o meu pequeno paciente “de olhos arregalados” e lhe disse que o pai estava ali pedindo minha ajuda para que pudesse se sentir ouvido, não só por mim, mas por ele, que a mim parecia que existia alguma dificuldade para isso. Disse-lhe também que ele poderia falar algo se quisesse, mas que embora o pai evidentemente trouxesse esta necessidade e expectativa, ele não deveria sentir-se obrigado a corresponder a ela. Meu mal estar aumentou muito quando falei isto; era como se eu não estivesse cuidando dede Luiz Augusto como deveria. Então, Luiz Augusto acenou com a cabeça negativamente, indicando que não tinha nada a dizer, ou seja, não queria, não podia dizer nada; estava visivelmente aflito, e parecia-me querer sair dali.

O que eu estava vivenciando era a existência de algo sem nome e impossível de nomear naquele momento, algo que existia só em angústia; uma experiência emocional que me pedia nome, me fazia sentir que deveria dizer algo, mas não havia palavras; nas palavras de Fedida (1988, p. 51 e 52),

“A origem da cultura está no momento da dotação de um sentido, isto é na nominação do afeto. Uma criança que grita: tem fome?, frio? sede? incômodo no berço? Grito é descarga à espera de uma recepção de sentido. Quando a mãe o entende como de fome – e não de sede, não como de frio, e não como de incômodo – repito, quando ela o entende como um grito de fome, pelos atos ou gestos que podem apaziguar a fome da criança, há uma nominação, um ato de nominação, um ato de linguagem e daí se constitui para a criança o que chamamos de afeto. Antes da linguagem não é um afeto. O afeto se constitui pela nominação do outro”.

Assim, é possível pensar quão importante é o trabalho do analista com o paciente no sentido de acolher a experiência que se re-apresenta na vivência da dupla, abrindo, com isto, a possibilidade de perfazer o trajeto psíquico que ficou sem nome, para enfim nomeá-lo. Tarefa que exige muito trabalho e de muitas idas e vindas...

Assim o tempo encerrou-se, e então pedi ao pai uma sessão extra para Luiz Augusto, pois ele ficou o tempo todo de espectador, e teve que “ouvir os sentimentos” do pai que eram bastante intensos; percebi que ele estava angustiado. O pai pediu mais uma vez para falar comigo sozinho; embora percebesse o desespero do pai e me sentisse completamente desconfortável em dispensá-lo, eu estava preocupada com Luiz Augusto e necessitava ficar a sós com ele, antes que se fosse; então disse ao pai, mais uma vez, que poderíamos marcar um horário para conversarmos..., mas ele estava evidentemente aturdido e o filho fez um gesto para sair da sala. Então o pai solicitou dele que o esperasse na sala de espera, e Luiz Augusto (filho), aliviado, deixou a sala, e o pai tomou o lugar que o filho ocupara minutos antes na escrivaninha.

Augusto curvou-se diante de mim e sussurrou: “Tenho algo para lhe dizer, mas isto deve ficar com você... (segredo) o Augusto é adotivo... e não saaaabe!”

Sua voz era trêmula, embargada de emoção, e, o que eu via, era uma criança de 47 anos...; este era um outro homem e não havia sinais daquele que vinha para as consultas, de aparência ausente, frio, nervoso, impaciente e, principalmente, preocupado com os negócios...

Embora eu tenha certeza da falta de necessidade em dizer o quanto esta cena foi contundente para ambos, prefiro dizê-lo; talvez, justamente, porquê nessa família tudo ficava dito pelo não dito.

Solicitei uma entrevista para que ambos os pais pudessem comparecer e falar da revelação do pai. Era contra a vontade da mãe revelar isto, mas o Sr. Augusto foi vencido pela angústia que o sufocava, pelo medo de perder o filho e porquê não agüentava mais continuar sozinho.

Quando Magda compareceu para a sessão, estava visivelmente contrariada, embora não mencionasse isso, tratou de deixar claro que, para ela, a adoção não era um problema. Então, novamente, ela relatou os fatos; disse que enfrentaram diversos tratamentos para que ela pudesse engravidar, mas que todos fracassaram. Ela estava extremamente assustada e incomodada com a necessidade de contar algo que pretendia manter em segredo para o resto de sua vida; mostrou-se todo o tempo defendida e sua agressividade estava mais aguçada. Esta, penosamente, era a única forma que Magda conseguia trazer sua dor.

O pai sentia-se preocupado com a possibilidade de um dia seu filho descobrir que fora adotado e preferia contar-lhe antes. Magda disse que se dependesse dela, isto jamais aconteceria, e que isto não tinha nada a ver com o sentimento materno, pois se sentia muito mais mãe do que algumas mulheres que geraram seus próprios filhos, e que, além disto, ela e o marido haviam feito algo louvável, tirando duas crianças do abandono. Tentei, de forma bastante cuidadosa, verificar com ela porquê sentia tanto medo de que os filhos soubessem a verdade, mas não havia a menor possibilidade de diálogo; o pai estava muito preocupado.

Formulo, então, uma primeira compreensão daquilo que poderia estar na base do sintoma de Luiz Augusto. Se “ser um filho” adotivo não era um problema, por que não podia ser revelado? Por que isto deveria se manter em segredo, ou ainda, por que se tornou um segredo? Quem estaria sendo “protegido” com ele?

Luiz Augusto não podia ingerir comida; preocupava-se com a data dos alimentos como se sentisse medo de ser envenenado. Uma proibição de ingerir sua própria história, isto lhe era solicitado veladamente através de um pedido materno, com a impossibilidade de uma interdição paterna, pois o pai desejava revelar “o segredo”, mas sentia-se interditado pela esposa.

A comida mantém o corpo vivo e, conseqüentemente, garante a existência física, mas é o acesso à história que permite fundar a subjetividade. Justamente isto estava sendo proibido a Luiz Augusto, o acesso à sua história, à sua origem. O que parece estar operando aqui são os recalques dos pais (5); talvez possamos visualizar com maior clareza àqueles que se referem à mãe.

Os pais de Luiz Augusto possuíam uma história de passagem da pobreza para a riqueza; houve grande esforço para superar a condição de origem, sendopossível inferir uma necessidade, de ambos, em superar este passado.

É possível que o sintoma de Luiz Augusto tenha se formulado a partir da impossibilidade da mãe, e do pai por ser cúmplice e conivente, em revelar a história de origem do filho – a origem num ventre pobre, que não pôde cuidá-lo, acolhê-lo, alimentá-lo, remetendo Magda às origens de sua própria infância, de uma mãe pobre, insuficientemente provedora. Assim, esta experiência psíquica permanecia desarticulada das demais, buscando um destino mortífero, uma tentativa de fazer morrer o passado para fazer viver o presente!

Luiz Augusto sentia que não podia ser alimentado daquilo que poderia constituí-lo como ser único, abrindo caminho à constituição de sua subjetividade; sabia que algo de grande importância lhe era negado. Suas tentativas de elaboração eram feitas frente “a massa disforme que continuava sendo mal animada – não tinha forma, não tinha história. “Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Em função de que aqui estou?”.

Para Luiz Augusto, alimentar-se parece ter adquirido o significado de conhecer algo que a mãe lhe proibia: sua origem; e se era proibido, era porque carregava, no mínimo, um significado da ordem do horror! Então, capturado pelo fantasma materno, que tentava alimentar o menino “querido” e fazer desaparecer o menino “abandonado”, Luís Augusto corria um risco real de morte – não se alimentava, “traduzindo” e reclamando a fome do espírito que, ao mesmo tempo o submetia. Se Luiz Augusto permanecesse neste lugar mortífero do desejo materno, jamais poderia se constituir como aquele que desejava para além do outro.

Para Zaltzman (1994, p. 50),

“O recurso aos limites do corpo é, às vezes, o único que resta a um sujeito para se subtrair ao excesso de ascendência mental de um outro, a uma ascendência mental potencialmente mortífera, porque exclusiva de uma escolha ou de uma recusa da vida apropriada por um outro que não o sujeito”.

Magda não pôde ser provedora no sentido de gerar um filho, agarrou-se ao trabalho para ser a grande provedora material. Creio ser possível pensar num deslocamento do afeto e na repressão das imagens ligadas ao fracasso de gerar um bebê. Os investimentos afetivos de Magda, na adoção desse filho, estavam carregados dos sentidos que não podiam “ser por ela sentidos”.

Magda mantinha, afetivamente e psiquicamente, dois lugares ambivalentes para sua mãe, a daquela que lhe dera a vida e que havia aberto mão de seu próprio destino em prol dos filhos, destino traçado pela pobreza, mas, assumido por esta mãe – uma escolha, que segundo Magda, poderia ter sido diferente; isto fazia dela uma eterna devedora. No entanto, esta mãe também era responsável pela pobreza pela qual Magda havia passado.

Assim, Magda parecia dividir-se entre estes dois destinos – buscando pagar a dívida para com a mãe, e ao mesmo tempo, buscando reparar seu estado de pobreza, o que a fez alcançar um lugar social muito diferente daquele da infância. Porém, alguma necessidade de não apagar a história por completo a fazia reunir ambos os lugares naquele filho – como representante de seu passado pobre, e, ao mesmo tempo, representante de sua ascensão da pobreza para a riqueza. Magda perpetuava sua história naquele filho ao mesmo tempo em que buscava bani-lo; por isto, podia apenas adotar o filho no campo material.

Luiz Augusto fazia um pedido de filiação espiritual, ou seja, era preciso adotar sua história, sua origem, não bastava adotá-lo na matéria. Para que ele fosse constituído subjetivamente era necessário desvelar o fantasma aprisionado no coração materno. O que podia alimentar a vida de Luiz Augusto não eram as belas propriedades, a melhor escola, as melhores roupas e brinquedos, mas, a possibilidade de aceitar a sua origem, e, para isto, a mãe deveria resgatar a sua [origem] também, pois é desta que ela buscava fugir. Talvez acreditasse que escondendo a história do filho poderia enterrar para sempre a sua – a história de sua pobreza, de sua impossibilidade de gerar seus filhos e todos os fantasmas que atravessavam a constituição de sua subjetividade.

É este o lugar materno que estava ameaçado e que a mãe acreditava poder preservar, mantendo o segredo da adoção.

Luiz Augusto veio para a análise num momento de crise de sua anorexia e saiu dele por duas vezes durante o período em que se manteve em trabalho comigo, numa luta constante, onde muitas vezes o limite entre a vida e a morte psíquica se fazia presente com toda a sua força. Isto se atualizava nas guerras que o seu ser disforme (O Mal Animado) buscava sobreviver. Muitas foram as cenas onde o mal animado, cansado de lutar, partia para um mundo (Luiz Augusto falava de um outro plano), sempre deixando um pedaço [do ser disforme] no plano atual (onde a morte acontecia). Ali, eu [analista], era convidada a ocupar o lugar da espectadora, assim eram os sujeitos de seu drama, todos espectadores que não podiam fazer nada além disto, sustentar esse momento com ele, contudo, parecia-me fundamental. Luis Augusto buscava, por mais paradoxal que possa parecer, um reconhecimento de sua existência única; antes, um direito à sua existência. Segundo Zaltzman (1994, p. 51),

“...A anorexia é um modo de evasão da coerção mental dos pais...O perigo reinstaurado pela anorexia, reanima, reintroduz na cena psíquica esta atividade mental tão necessária à vida quanto a atividade mental libidinal, mesmo se o preço for o risco de morte real. Inicialmente, esta mediação dos limiares de resistência está ao serviço da autoconservação e da individuação. Quando esta ação pulsional, este experimentar da permanência em vida, através da exposição ao perigo, torna-se para o sujeito em certas condições uma necessidade vital interior, quando só a prova de força, a prova de morte pode assegurar que ele está vivo por sua própria vontade e não pela vontade de um outro arbitrário que pode também abandoná-lo, a função vital de autoconservação, necessariamente repetida a efeitos mortíferos contrários à sua intenção.”

Isto confirma a idéia de que Luís Augusto não buscava a morte, mas um modo de se separar do excesso de presença mental da mãe; buscava o direito de dar um destino à sua própria história, pelo menos naquilo que lhe conferia o direito de alguma escolha, não pôde escolher nascer e ser abandonado, mas podia escolher viver por sua própria vontade, algo que sabia por algo que se “fazia sentir”. Possivelmente buscava “sua forma” que estava para além do traçado de seu corpo, através de um apelo aos limites do corpo, “o apelo de uma realidade biológica”, como diria Zaltzman (1994, p.50). Uma busca empreendida na esperança de dar contorno à sua existência imaterial (psíquica) intermediada pelos contornos do próprio corpo, que, por sua vez, “possui limites próprios, intransponíveis, que se furtam à ascendência mental” (p. 50) e coloca em risco a continuidade da vida, dando amplitude à pulsão de morte, mesmo quando o desejo é contrário.

As vivências de contratransferência (6) que emergiram no atendimento a essa criança, e aos pais, possibilitou uma melhor compreensão da dinâmica transferencial que operava no campo relacional, [re]velando suas marcas psíquicas. Assim foi-me possível sustentar uma atitude fértil ao espaço analítico, ora silenciando, ora interpretando, ora apontando-lhe para a minha percepção do sentido que ele atribuía às cenas de despedaçamento de si. Considero este último ponto de vital importância, pois a implicação do analista nestes casos tem a sua medida justa, ou seja, nem tanta neutralidade e nem tanta benevolência. ( 7) Quando este domínio da transferência/contratransferência, não encontra canal satisfatório, torna maior a possibilidade de a Identificação Projetiva, que opera junto à contratransferência, se colocar para dentro do analista de forma impertinente, pouco controlada e promover atuações desfavoráveis ao trabalho analítico. Irma B. Pick (1990, p. 50) sustenta que:

“A essência da análise é a projeção constante do paciente para dentro do analista; cada interpretação busca uma mudança da posição esquizoparanóide para a depressiva. Isto é válido não só para o paciente mas também para o analista, que precisa sempre regredir e elaborar. Eu me pergunto se a verdadeira questão da interpretação superficial versus a verdadeiramente profunda não reside, não tanto em termos do nível em que foi apresentada, mas no grau em que o analista elaborou internamente o processo no ato de dar a interpretação.”

Ou seja, o “esperado” é que a interpretação possa promover transformações tanto no analista como no analisando, e que o mais importante é a capacidade do analista, naquele momento, compreender dentro de si o que se passa na relação com o paciente; mais importante do que explicitar qualquer nível de interpretação.

É possível observar que Luiz Augusto buscava, entre outras vivências que a análise poderia lhe proporcionar, uma repetição comigo de suas vivências psíquicas, originadas e atualizadas no constante movimento dos pais em exorcizar tais vivências mentais ameaçadoras. Assim, no palco da transferência, a projeção sobre mim, desses conteúdos, era bastante forte.

Quando se tenta ignorar ou manter fora da experiência psíquica, algo que se sente como perigoso, é visivelmente notável que isto retorne com sua força multiplicada, redobrando os riscos de atuação de tais conteúdos. Como cita Irma Pick, o que acontece nesses casos é um não reconhecimento de vivências psíquicas, e isto é contrário às teorias psicanalíticas sobre a vida mental.

Assim, em meio a estas vivências, tendo Luiz Augusto se recuperado de uma recaída de sua anorexia e vivenciando um momento mais favorável em relação ao seu estado físico, pelo menos aos olhos dos pais, Magda resolve interromper o trabalho de análise de Luiz Augusto, e, mais uma vez, com o consentimento do pai, que não podia conflituar com a esposa num nível manifesto, mas que num nível latente também não se permitia adentrar em seus medos e conflitos a respeito do enfrentamento da verdade sobre a história do filho, que provavelmente, implicava-o muito além disso. O segredo da adoção somente poderia ser trazido à luz se os pais pudessem se implicar profundamente com os próprios segredos.

As últimas sessões com os pais foram muito difíceis, Magda estava absolutamente defendida para tratar de seus medos e dificuldades a respeito da origem de seu filho. Era impossível pensar sobre as ressonâncias que sua dor produzia em Luiz Augusto, implicando a continuidade de sua existência num nível real e também a possibilidade de constituir-se enquanto um ser singular; parecia ser uma questão de sobrevivência que a impedia de abraçar a causa.

Ficou evidente a cisão operada por Magda, sendo ela a mãe boa e tendo a mim para projetar suas partes más. Representava grande ameaça para os pais, talvez mais para Magda do que para Augusto, o fato do filho estar comigo. Para ela era claro, ainda que num nível interno inatingível, eu me tornara uma ameaça desde que passei a conhecer o segredo do casal, “quebrado” pelo marido que estava perdendo as forças para continuar a compactuar com ela; além disso, meu trabalho seguia na direção de permitir que Luiz Augusto pudesse se alimentar; Magda sentia que o campo analítico estava se tornando um útero para o filho, um útero que poderia nutri-lo daquilo que ela não podia e não queria, pois colocava sua vida psíquica em risco; exigia dela um novo lugar na relação materna; por paradoxal que possa parecer, um lugar que exigiria muito mais dela como mãe! Na contrapartida, entretanto, ela deveria encarar um luto nunca antes realizado, o luto de um ventre inóspito. O pai, entretanto, parecia, cada vez mais, atraído pela idéia de revelar a verdade ao filho; se pensarmos um pouco adiante, Luiz Augusto separa-se da idéia que alimentou durante anos com Magda e passa a considerar o quanto o segredo estava limitando seu filho e o quanto o estava pondo em perigo, muito diferente daquele pai do início do trabalho que não acreditava que pudesse receber ajuda; ele parecia estar despertando para encarar a sua própria verdade, pois só assim poderia ajudar o filho a encarar a sua verdade;

Contudo, quando a mãe começou a falar do desejo de retirar Luiz Augusto da análise, revelei-lhe que apesar da anorexia de Luiz Augusto estar controlada, o que estava em jogo era algo muito mais precioso, e que era disto que Luiz Augusto dependia para constituir-se como um sujeito único, e que para isto, ele deveria apropriar-se de sua história.

Magda negou-se de forma incisiva. Disse-lhe então, que independentemente daquilo que ambos (pais) resolvessem – contar ou não a verdade, esta existia e estava posta, e que o rumo que isto poderia tomar era algo impossível de ser controlado como ela imaginava. Que sua atitude de querer enterrar a história do filho colocava sua vida real em risco. Ela me disse que preferia correr o risco, mesmo que fosse para Luiz Augusto morrer. Aquele mal estar inicial do trabalho, quando eu ainda não conhecia Magda, retornou com esta fala que me causou grande impacto.

Num nível inconsciente Luiz Augusto sabia do perigo de querer saber de sua história, e que, afrontar esta necessidade, ocupar o lugar daquele que sabe, quer saber, seria aceitar um alimento venenoso da própria mãe, pois, se esta escondia é porque deveria tratar-se de algo realmente mortífero. Ao mesmo tempo, num outro vértice, podemos considerar que Luiz Augusto não queria colocar em risco o frágil amor materno, adoecido pela crônica ferida narcísica de Magda e também pelo ódio que ele próprio sentia.

O que Magda buscava o tempo todo era fazer vingar seu filho. Todas as suas tentativas de gerar um bebê foram frustradas, de modo que, é muito provável que ela alimentasse uma fantasia de que seu ventre fosse assassino. Assim, acreditava que mantendo a mentira para Luiz Augusto, de ter sido gerado por ela, estaria garantindo, psiquicamente, uma vitória da pulsão de vida sobre a pulsão de morte.

Parece que Magda projetou a pulsão de morte sobre a analista como uma forma de defesa, retirou Luiz Augusto da análise acreditando estar subtraindo o filho da morte. Mas, é possível que Luiz Augusto estivesse atuando no sintoma (anorexia) a pulsão de morte da mãe. Seu sintoma formulava a necessidade da palavra, era preciso nomear a experiência emocional para que a energia psíquica utilizada no sintoma (Thanatos/Morte) pudesse ser investida de forma mais adequada (Eros/Vida), possibilitando a vitória da pulsão de vida sobre a pulsão de morte.

Não basta querer um filho (espírito), é preciso um ato (gerar/adotar) para que ambos se entrelacem e produzam vida (investir o desejo). Um não tem sentido e possibilidade de existir sem o outro (espírito/corpo). O desequilíbrio no investimento de um, dispara a pulsão de morte para ambos. Um ser somente terá a possibilidade de constituir-se enquanto sujeito psíquico a partir de um corpo onde nele se inscreva uma história. A busca da vida tem uma especial vertente para o ser humano; Ele busca a vida porque sabe da morte. Em alguns casos, para que a vida seja encontrada é preciso tomar a via contrária, buscar a morte para encontrar a vida; corre-se, porém, grande perigo de perder a vida. Segundo Zaltzman (1990, p. 50), a maior parte das pessoas não precisa checar os limites do próprio corpo quando estes são mais bem alcançados psiquicamente; há, entretanto pessoas que necessitam “percorrer novamente o traçado de seu corpo”.

Magda podia oferecer um lar e todos os bens materiais ao filho, mas não podia lhe oferecer a verdade imaterial de sua história, era preciso que Luiz Augusto fosse gerado em seu coração através da palavra.

E, para finalizar, abro espaço para “falar” de uma leitura singular; evocando o mito de Dionísio/Baco Nardini, (1982, p. 82-88), deus do vinho; faço uma aproximação com o episódio clínico que acabo de apresentar...

O grego Dionísio e o romano Baco, embora representem o mesmo nume, são diferentes, se não opostos: um é misterioso e sagrado, o outro, luxurioso e profano; o primeiro corresponde ao interior do homem; o segundo, ao exterior; Dionisio é o fogo divino que inflama e exalta o espírito e a ação; Baco, o vapor do vinho e da crápula que turva a mente e entorpece os membros.

Zeus, sempre em busca de novas aventuras, apaixonara-se por Sêmele, a belíssima filha de Cadmo e Harmonia, e esse amor deu rapidamente seus frutos, pois a jovem percebeu que esperava um filho.

Hera, ciumenta, tramou sua vingança, (...)

Sêmele (...) pediu a Zeus que se mostrasse a ela com todos os seus atributos divinos (...)

Zeus suplicou-lhe que desistisse dessa curiosidade (...)

Este, comparecendo de repente diante dela em todo o seu esplendor, com o feixe incandescente dos raios na mão, transformou o palácio e tudo o que nele vivia numa imensa fogueira.

A bela Sêmele, envolvida pelas chamas, procurou em vão salvação. Zeus recolheu piedosamente seu corpo e subtraiu à morte o filho que a infeliz trazia no ventre (...) mandou costurar o feto em sua coxa e lá o guardou até completar nove meses. Depois confiou o recém-nascido a Hermes (...)

Mas a astúcia de Hermes não enganou Hera, que, para destruir o fruto do amor de Zeus (...) Zeus subtraiu com dificuldade o pequeno Dionisio à fúria assassina de Hera (...)

Entretanto, o jovem Dionisio cresceu em força e inteligência, e descobriu o fruto da videira e a arte de transformá-lo em vinho.

(...) o mesmo nume podia Ter duas representações; podemos acrescentar que Dionisio-Baco adquiriu rapidamente não dois, mas até três aspectos, três diferentes fisionomias.

Um foi o pândego Baco, deus do vinho e da alegria (...)

Outro é o nume do delírio orgástico (...) transtorna a mente e os membros, desencadeando os instintos mais cruéis e mais baixos.

Um, enfim, é o nume redentor, o Dionisio (...)

O sempre jovem Dionisio, (...) é a ebriedade – ou o leve delírio – imaterial que faz o homem perceber seu próprio íntimo.

Apesar de Dionísio ter sido subtraído da morte, quando no ventre materno (Sêmele), não lhe bastou ser gerado na coxa de seu pai (Zeus) para vingar a vida enquanto corpo. Dionísio reclamou isto tornando-se o deus do vinho. O vinho, segundo a lenda, pode despertar a ebriedade (o leve delírio) que é o contato do homem com seu próprio íntimo, mas, consumido em seus excessos pode tornar o homem embriagado, desencadeando os instintos de forma desenfreada. Aqui Dionísio busca sua existência para além do corpo.

Dionísio buscou ainda recuperar sua filiação materna quando transpôs a soleira da morte e retirou do inferno (vale dos mortos) sua mãe, solicitando de Zeus que desse a ela a vida eterna.

Havendo um excesso de energia psíquica desligada, sem destino, esta fica a serviço da pulsão de morte, é possível inferir que seja assim que se formule a anorexia de Luiz Augusto. O vinho ingerido em excesso desperta o espírito de forma descomedida - temos a embriaguez de Baco. Porém, se o vinho é ingerido de forma comedida, temos o leve delírio de Dionísio, a leve embriagues que faz o homem tomar contato com seu lado imaterial e “perceber seu próprio íntimo; portanto, um deus ainda vivo e ativo no maravilhoso e secreto universo da alma” (Nardini, 1982, p. 88)

Seria necessário realizar uma passagem do deus Baco para o deus Dionísio, passagem da ebriedade para o leve delírio, e, para isto creio que Magda precisaria, deixando de temer seu “corpo assassino”, deixando de renegar sua própria história, unir sua condição de corpo e espírito e entregar este legado ao seu filho. Não basta a filiação do corpo, mas esta deve ser precedida da filiação do espírito. É o espírito que habita o corpo, e este somente tem sentido e vida assim, quando a alma o habita.

E o barro se faz vida somente diante do sopro divino...

REFERÊNCIAS

(1) Este artigo foi originalmente publicado em março de 2004, na Pulsional Revista de Psicanálise; Clinicando, p. 87-101, ano XVII, n. 177.

(2) Psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC S/P (Núcleo de Psicanálise), Especialista em Psicologia Clínica, Colaboradora do Ambulatório de Pacientes Somatizadores da UNIFESP desde 2004.

(3) No momento em que este artigo foi escrito eu estava trabalhando em minha Dissertação de mestrado que, a princípio, deveria versar sobre o tema da contratransferência. A pesquisa, entretanto, acabou se ampliando, de modo que, o seu seguimento me permitiu compreender que o que se passa do lado do analista não pode apenas ser interpretado como efeito do fenômeno contratransferencial; tudo se passa num “campo analítico” que considera o par analítico, a relação emocional que se desenvolve entre (campo) eles.

(4) Veja nota de rodapé n/3. A idéia é amplamente apresentada em minha dissertação de mestrado “Escutando com imagens” em 2004 na PUC/SP.

(5) Observação fevereiro/2007: Certamente não é só de recalque que se trata, é muito provável que estivéssemos transitando numa área psíquica que se encontra para além da representação; entretanto, isto daria um outro artigo, e não é a proposta do momento.

(6) Novamente, remeto o leitor à nota de rodapé n/3

(7) De acordo com PICK (1990, p. 57), “também dentro do analista ocorre uma interação emocional espontânea com as projeções do paciente, e que se respeitarmos isso integralmente e não formos dominados pela exigência de uma neutralidade impecável, poderemos fazer melhor uso da experiência para a interpretação”.

Referências Bibliográficas

Gênese, Capítulo 2, versículo 7 in Bíblia Sagrada, ed. Ave-Maria Ltda, 121ª edição. 

BICK, Esther (1962), “Análise de Crianças Hoje” in Melanie Klein Hoje, Desenvolvimentos da teoria e da técnica, Vol 2: Artigos predominantemente técnicos, Editado por Elizateth B. Spillius, Coordenador Elias Mallet da Rocha Barros. Rio de Janeiro: Imago, 1990. 

FÉDIDA, P., “Amor e Morte na Transferência” in Clínica Psicanalítica. São Paulo: Escuta, 1988, p.51-52.

FIGUEIRA, Sérvulo Augusto, 5ª aula sobre Winnicott, proferida em 29.06.1996, O Ódio na Contratransferência (1947) in Textos selecionados: da pediatria à psicanálise, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

NARDINI, Bruno, Dionísio, ou o jubiloso Baco, deus da alegria, da orgia e do êxtase in Mitologia: O primeiro encontro (título original: “Primo incontro com la mitologia”), Círculo do livro, 1982.

PICK, I. B., Elaboração Na Contratransferência (1985) in Melanie Klein Hoje, Desenvolvimentos da Teoria e da Técnica, Volume 2: Artigos predominantemente técnicos”, Editado por Elizabeth Bott Spillius, Coordenação: ROCHA BARROS, Elias M. da, Rio de Janeiro: Imago,1990.

WINNICOTT, D.W., O Ódio na Contratransferência (1947) in Da Pediatria à Psicanálise, Obras escolhidas, Rio de Janeiro: imago p. 277-287, 2000.

ZALTZMAN, Nathalie, A Pulsão Anarquista, São Paulo: escuta, 1994.

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