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Grupo psicoeducativo para pais e cuidadores de pacientes com Transtornos Alimentares da CEPPAN.*

Priscilla Gonçalves Liberatti Martins
Vicente Sarubbi Júnior

O alto índice de abandono nos casos de tratamento dos Transtornos Alimentares tem evidenciado a necessidade de uma conduta terapêutica que não esteja isolada do contexto familiar. Grupos de orientação a pais têm apontado para um modelo de intervenção psicoeducativo, com o objetivo de integrar os elementos que compõem uma proposta de tratamento multidisciplinar.

Sob o enfoque de orientação e esclarecimento, o trabalho psicoeducativo permite a inclusão participativa dos familiares e cuidadores durante o tratamento, favorecendo a diminuição da angústia familiar, fator decisivo na melhora e recuperação do paciente.

O contato com profissionais especializados, que abordam de forma didática temas específicos como a etiologia e epidemiologia dos Transtornos Alimentares, conceitos socioculturais, caráter fisiológico e nutricional, e aspectos psicodinâmicos encontrados na doença, permite que as famílias esclareçam as suas dúvidas. A troca com outros familiares permite que compartilhem seus medos e ansiedades. Esse acolhimento favorece, muito, a adesão das famílias ao tratamento.

Levando esses dados em consideração, e atendendo a uma demanda específica de familiares, a CEPPAN iniciou, no primeiro semestre de 2007, o grupo psicoeducativo para pais e cuidadores. Diante de uma maior divulgação dos riscos e da gravidade da doença pelos meios de comunicação, pais, irmãos, cônjuges, tios, pessoas de importante ligação (babá, autoridade religiosa íntima da família, namorados, amigos de referência) entraram em contato com a CEPPAN para obterem algum tipo de ajuda.

Funcionamento dos grupos

Embora a formação dos grupos e o encaminhamento dos trabalhos tenha seguido as referências literárias, foram realizadas algumas adaptações para melhor atender as necessidades dos familiares.

Foram programados nove encontros, sendo o primeiro e o nono destinados à abertura e ao encerramento das atividades. Sete encontros abertos, quinzenais, com duração de uma hora e trinta minutos foram destinados a temas específicos, apresentados por profissionais com experiência em Transtornos Alimentares.

Cada encontro, dirigido por dois coordenadores - membros da CEPPAN -, e seguindo uma proposta psicoeducativa, foi divido em três momentos:

1. Apresentação do tema pelo profissional convidado (50 minutos);
2. Espaço para perguntas e comentários referentes ao tema proposto (30 minutos);
3. Fechamento do encontro realizado pelos coordenadores (10 minutos).

No primeiro encontro o grupo foi recepcionado com uma explanação sobre a fundamentação e a finalidade terapêutica dos grupos psicoeducativos, sua estruturação e proposta de trabalho. Nos outros, foram abordados os seguintes temas:

O tratamento médico psiquiátrico: critérios diagnósticos para definição do quadro da Anorexia e da Bulimia Nervosa; epidemiologia; etiologia; incidência; sintomatologia; fatores predisponentes, precipitantes e mantenedores dos Transtornos Alimentares; alimentação e uso de medicamentos; os Transtornos da Alimentação: o comer restritivo, o comer seletivo e a fobia alimentar.

O tratamento nutricional: resistências ao tratamento; o que oferecer nas refeições; quais os limites; a parceria com os pais; como lidar com o sentimento de culpa e paralisação diante do quadro; orientações para o paciente e a família reconstruirem um padrão alimentar saudável.

Aspectos psicológicos e psicoterapia do paciente com T.A.: a inter-relação de fatores que formam o gatilho para o aparecimento da doença; desenvolvimento psíquico infantil; transformações da puberdade; desafios da adolescência.

A família e o tratamento familiar: abordagem de estudos que comprovam a eficácia da inclusão da família no tratamento; características comuns encontradas nas famílias de pacientes com Anorexia e Bulimia Nervosa; a doença como um sintoma familiar; o ideal e o possível de um tratamento.

Adolescência: diferenciação entre pubescência e adolescência; lugar e crise na adolescência; as dificuldades em lidar com as perdas do mundo infantil; imitação, competição e idealizações; sexualidade; limites.

Endocrinopediatria: o papel dos hormônios; a importância do tecido gorduroso e o apetite; manifestações clínicas secundárias nos Transtornos Alimentares: amenorréia, retardo puberal, diminuição do crescimento, hipotireodismo, osteoporose e osteopenia.

Durante os encontros, procurou-se esclarecer os familiares quanto às suas dúvidas, especialmente quanto às seguintes questões: número de refeições necessárias, quantidade e qualidade dos alimentos; como deveriam se comportar diante da recusa do paciente em se alimentar; dificuldade em lidar com sentimentos de raiva e culpa diante desta recusa; ganhos secundários da doença e dificuldade em estabelecer limites; diferença entre cuidar e superproteger.

Conclusão

Segundo a avaliação dos pais, o resulado dos encontros foi satisfatório, especialmente quanto aos seguintes quesitos: obtenção satisfatória de respostas; aprimoramento de conhecimento; oportunidade de externar dúvidas e insatisfações frente ao tratamento; possibilidade de partilhar das evoluções positivas de outros familiares que passam pelo mesmo problema; diminuição da ansiedade e maior paciência para ajudar um filho; ampliação para um diagnóstico da família; pedidos de encaminhamento para psicoterapia individual de alguns pais.

Ao finalizar os encontros propostos, foi satisfatório perceber a realização de um trabalho que possibilitou confrontar as expectativas teóricas com os dados obtidos na prática. A resposta demonstra que existe uma relação positiva entre o rebaixamento da ansiedade e desenvolvimento de uma perspectiva mais benigna do tratamento.

A aproximação aos profissionais e o interesse pelos encontros que as famílias mantiveram com a CEPPAN, os resultados obtidos na avaliação final e a demanda por encaminhamentos para atendimento individual, mostraram um favorável grau de mobilização e reconhecimento da implicação dos familiares e cuidadores no tratamento. Estes resultados estimulam e justificam a continuidade de novos grupos psicoeducativos.

Bibliografia

Look J; Grance DL; Agras WS; Dare C. Treatment manual for anorexia nervosa: a family-based approach. NewYork: The Guildford Press; 2001.

Nunes MAA; Ramos DC; Fasolo C. Transtornos Alimentares. Grupo de orientação aos pais. Jornal Brasileiro de Psiquiatria; vol 44 supl 1, Outubro, 1995.

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Schomer EZ. O papel da família nos transtornos alimentares. In: Bucaretchi HA. Anorexia e Bulimia Nervosa: uma visão multidisciplinar. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2003.

Steiger H. Trailer les troubles des conduites alimentaires: une approche psycho-éducative de groupe. Prisme, 30, 80-97, 1999.

Uehara T e cols. Psychoeducation for the famlilies of patients with eating disorders and changes in expressed emotions: a preliminary study. Comprehensive Psychiatry; 42 (2): 132-138, march/april, 2001.

Sobre os autores

Priscilla Gonçalves Liberatti Martins – Psicóloga. Especializada em Psicologia Hospitalar pela ISCMSP.
Vicente Sarubbi Jr. - Psicólogo. Especializado em Psicologia Aplicada à Nutrição Infantil pela UNIFESP.

* Artigo publicado originalmente em Cadernos da Ceppan. Revista de Transtornos Alimentares. Edição n.1, março de 2008.

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