Artigos

Diálogos pertinentes: psicanálise, psiquiatria e transtornos alimentares **

Alessandra Sapoznik*

No âmbito das publicações sobre transtornos alimentares, a psicanálise não aparece como um referencial teórico-clínico muito citado na compreensão e no tratamento dessas patologias, pelo menos não pela literatura especializada de origem anglo- saxã.

No Guideline de Transtornos Alimentares (2000) da Associação Americana de Psiquiatria, a psicanálise é indicada para o tratamento de pacientes difíceis, com comorbidades do Cluster B do DSM-IV-R, como o transtorno de personalidade do tipo borderline.

Em outros artigos, a psicanálise também aparece por vezes um pouco “suavizada” através do uso do termo abordagem psicodinâmica dos transtornos alimentares. Certamente a psicanálise opera sobre as dinâmicas inconscientes, mas ela difere em muitos pontos de uma abordagem psicodinâmica.

Tal apontamento pode parecer, à primeira vista, um preciosismo de linguagem. Porém quando estamos diante de uma publicação pioneira como Os Cadernos da CEPPAN (2008), que tem como objetivo, segundo o editorial da Edição N.1, “compreender e definir um referencial teórico-clínico que alicerce a prática da Psicanálise nos Transtornos Alimentares”, é necessário buscar compreender quais os motivos que levam a essa escassez de referências a trabalhos psicanalíticos no meio psiquiátrico, uma vez que podemos encontrar diversas publicações bastante consistentes em outros meios, advindas de psiquiatras e psicanalistas que compõem e coordenam serviços dedicados ao tratamento dos transtornos alimentares e da adolescência na América Latina e Europa.

A pergunta nos leva diretamente a uma discussão importante e delicada que diz respeito às diferenças metodológicas entre a Psiquiatria e a Psicanálise.

Do ponto de vista histórico, ambas disciplinas já compartilharam, em um passado não tão distante, de uma visão psicopatológica mais afinada que confluía de modo favorável na clínica.

Ainda que a noção de cura em medicina e em psicanálise sejam muito distintas, o que antes era compartilhado pelos dois campos de conhecimento dizia respeito à construção do diagnóstico clínico, com ênfase em uma investigação detalhada da psicopatologia, ancorada na história singular de cada paciente.

A elaboração de um sistema classificatório categorial, que se propõe a ser ateórico, marca uma ruptura entre a Psiquiatria e a Psicanálise, uma vez que o DSM-IV visa estabelecer categorias de diagnóstico objetiváveis, que possam se constituir em um idioma comum para clínicos e pesquisadores com formações diversas, que se encontram em culturas diferentes.

É inegável que esse sistema classificatório visa evitar mal-entendidos diagnósticos, viabiliza que um grupo maior de sujeitos seja agrupado com fins de pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos e mobiliza recursos financeiros para o tratamento das doenças investigadas.

Porém seria ingênuo pensar que tamanho pragmatismo e objetividade não trariam conseqüências.

Um dos limites observáveis desse modelo se traduz em um certo empobrecimento da clínica em detrimento dos avanços na área da pesquisa, sobretudo na “arte” de se diagnosticar, calcada no estabelecimento de uma relação sólida entre médico e paciente. Segundo Fuks (2003), “se nos limitamos a identificar e agir sobre os comportamentos alimentares e seus efeitos somáticos e psíquicos sem levar em conta os processos estruturais e históricos que os ”solicitaram", o resultado é nulo, pobre e proclive à repetição ou a uma substituição, não benéfica, da sintomatologia.”

O sujeito contemporâneo se assemelha muitas vezes a um sujeito fragmentado em pequenos sub-diagnósticos, mas que nem sempre parece estar confortável com seu sofrimento psíquico.
As queixas que escutamos, sobretudo de nossos jovens pacientes anoréxicos e bulímicos são relatos de vivências de vazio e desamparo profundos, que resultam por vezes em acting-outs como condutas de auto-mutilação, tentativas de suicídio, entre outros. O psiquiatra e psicanalista francês Philippe Jeammet (2005), um dos profissionais que melhor transita entre a psicanálise e a psiquiatria, afirma que a dor é buscada com a finalidade de controlar a sensação de ineficácia do ego.

Do lado da psicanálise algo também se passou. Como uma reação típica daquele que está ressentido e se sente ameaçado, muitos psicanalistas passaram a reproduzir um discurso contrário ao uso de medicações, e se mantiveram afastados de qualquer possibilidade de interlocução com o campo de conhecimento alheio.

De acordo com Pereira, criou-se assim uma dinâmica antagônica, bastante maniqueísta e pouco consistente, onde de um lado se encontram os defensores da Medicina Baseada em Evidências (MEB), com seus estudos randomizados, nos quais a epidemiologia e os dados numéricos se sobressaem à clínica e de outro, os psicanalistas, extremamente críticos em relação ao modelo de ciência vigente, enfatizando que a medicina atual, da forma como vem sendo praticada, não favorece a possibilidade do sujeito encontrar maneiras de lidar com seu próprio sofrimento.

A crítica é pertinente, porém, na maioria das vezes, não vem acompanhada de nenhuma proposta, e soa aos ouvidos dos psiquiatras como um ataque. Uma das propostas possíveis poderia ser o desenvolvimento de uma metodologia de pesquisa em psicanálise, estabelecendo-se critérios e uma lógica própria que se valesse de todo o rigor metapsicológico e clínico inerente à teoria psicanalítica.

É freqüente escutarmos que o sujeito da pós-modernidade padece de uma “doença da alteridade”, da dificuldade de reconhecer o outro na sua diferença. Pois bem, nem a Psiquiatria nem a Psicanálise conseguiram ainda escapar desse impasse alteritário, e por enquanto a solução encontrada pelas duas partes é o isolamento.

Entretanto, é no contexto do dia-a-dia de algumas equipes multidisciplinares que esse debate se torna menos árido e que a diversidade de concepções teóricas e metodológicas distintas podem coexistir e produzir um espaço de mobilidade e circulação, qualidades essas, na maioria das vezes, ausentes na vida dos pacientes com transtornos alimentares.

Referências Bibliográficas

1. Fuks, M.P “O mínimo é o máximo:uma aproximação da anorexia”. In: Volich, R.M., Ferraz, F.C. & Ranña, W. (orgs) Psicossoma III: interfaces da psicossomática. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
2. Gonzaga, A.P. & Weiberg, C. Editorial. Os Cadernos da Ceppan 1, 2008, 3.
3. Jeammet, P. & Corcos, M. Novas problemáticas da adolescência: evolução e manejo da dependência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.
4. Pereira, M.E.C. “O DSM-IV e o objeto da psicopatologia ou psicopatologia para quê?” (texto apresentado nos Estados Gerais da Psicanálise, São Paulo, 2005)
5. Yager, J., Andersen, A., Devlin, M. et al. American Psychiatric Association: Practice guideline for eating disorders. Am J Psychiatry 2000;(Suppl);157

* psicóloga, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, e da Academy for Eating Disorders.

** Artigo publicado originalmente em Cadernos da Ceppan. Revista de Transtornos Alimentares. Edição n.2, junho de 2008.

  Copyright© 2006 Ceppan - Todos os direitos reservados.   Desenvolvido por Nina.