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Transtornos da Alimentação **

Carolina Z. G da Costa *             
Rosa Magaly C B de Morais *

A refeição é um ato social que coloca a criança em contato com o mundo desde os primeiros dias de vida. De acordo com as condições nas quais se efetua, pode assumir um caráter compensatório ou punitivo para os cuidadores e funcionar como meio de troca para a criança. A princípio, problemas da alimentação refletem mais um sintoma que um diagnóstico. Todavia, na presença de prejuízo, é necessária uma intervenção especializada.

A prevalência dos transtornos da alimentação (TdA) não é bem estabelecida. Ela está estimada em 25% de todas as crianças e em 80% das crianças com alterações do desenvolvimento. Problemas da alimentação severos, entretanto, são observados em 3 a 10% dos casos.

A etiologia envolve fatores parentais (herança genética e transtornos alimentares maternos), ambientais (desorganização nos períodos de refeição, relações desarmônicas entre os pais e hábitos culturais) e questões inerentes à criança (etapas do desenvolvimento).

O curso e prognóstico variam conforme o tipo de transtorno da alimentação e possível presença de um outro transtorno psiquiátrico.

Há carência de um sistema de classificação padronizado. Existem classificações já definidas nos manuais diagnósticos e novas propostas (Lask; Chatoor; Davies) visando pontuar as fases do desenvolvimento infantil, abranjer as facetas que rodeiam a apresentação clínica e determinar o contexto para o planejamento de tratamento multidisciplinar.

Subtipos clínicos descritos por Lask e Bryant-Waugh (em todos existe prejuízo funcional e não há uma preocupação com o peso ou distorção da imagem corporal):

Comer seletivo: caracteriza-se por um repertório alimentar limitado (5-6 tipos de alimentos). Geralmente o peso, a altura, as condições clínicas e a quantidade de alimentos ingeridos são adequados. Os sintomas devem estar presentes por no mínimo 2 anos.

Comer restritivo: caracteriza-se por pequena ingesta alimentar, sem alteração na variedade do repertório alimentar. Geralmente o peso está abaixo do esperado e, na persistência dos sintomas, a altura pode estar prejudicada.

Fobia alimentar: caracteriza-se por esquiva alimentar relacionada ao medo de engolir, engasgar, sufocar ou vomitar. Sintomas fóbico-sociais e somáticos são freqüentes. Na maioria dos casos não há fator desencadeante identificado. A esquiva pode ser a determinadas texturas de alimento. Geralmente o peso está abaixo do esperado e, na persistência dos sintomas, repercussão clínica pode ocorrer.

Transtorno emocional de evitação alimentar: caracteriza-se por evitação alimentar relacionada a quadro emocional primário. Não há consenso se este transtorno é uma entidade independente, uma condição intermediária da anorexia nervosa e transtorno emocional ou uma síndrome parcial da anorexia nervosa com sintomas menos intensos. Geralmente têm baixo peso e prejuízo no crescimento.

Síndrome de recusa abrangente: caracteriza-se por recusa global envolvendo comer, beber, andar, falar ou manter auto-cuidados, estendendo-se por vários meses. É uma condição rara e potencialmente ameaçadora à vida. Essas características não se enquadram em qualquer outra categoria diagnóstica. Sugere-se que seja entendida como uma forma extrema de transtorno de estresse pós-traumático.

Recusa alimentar: é pouco consistente. As crianças usam a alimentação como uma forma de protesto e oposição aos pais. Não há recusa para alimentos preferidos. A recusa aparece em locais ou com pessoas específicas. Não há repercussões clínicas.

Tratamento

O tratamento dos TdA envolve medidas não farmacológicas, principalmente modificações ambientais. É indicado tratamento interdisciplinar. Exceto na presença de síndrome psiquiátrica concomitante, o uso de psicofármacos deve ser avaliado caso a caso, pois pesquisas com intervenções farmacológicas para o tratamento de transtornos da alimentação são esparsas.
Orientações simples podem ser de grande valia:

  • respeitar o direito de a criança ter preferências, aversões e oscilações no seu apetite;
  •  oferecer os alimentos em quantidades pequenas para encorajar a criança a comer;
  •  não ameaçar, punir ou obrigar a criança a comer, assim como não oferecer recompensas.
  • evitar qualquer outra forma de distração no ambiente das refeições,
  • não demonstrar irritação ou ansiedade no momento da recusa
  •  estabelecer o tempo de duração e os horários das refeições,
  •  apresentar os pratos de maneira agradável, com textura própria para a idade.

Bibliografia 

American Psychiatric Association and American Psychiatric Association. Task Force on DSM-IV. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-IV Washington, DC, American Psychiatric Association 1994.

Chatoor, I. Feeding disorders in Infants and Toddlers: diagnosis and treatment. Child Adoles Psychiatric Clin N AM; 11:163-83, 2002.

Davies WH, Satter E, Sato AF e cols. Journal of Family Psychology; 20(3): 409-16, 2006.

Lask B, Bryant-Waugh R. Overview of the eating disorders. In: Anorexia nervosa and related eating disorders in childhood and adolescence. Ed. Lask, B. and Bryant-Waugh, R. 2nd ed. Psychology Press; 2000.

Organização Mundial da Saúde Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas – 10ª edição, (trad.) Caetano, D. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993.

* Carolina Z. G da Costa
Médica Psiquiatra com atuação na Infância e Adolescência
Pós-graduada em Ciências - área de atuação Psiquiatria, pela
Faculdade de Medicina da USP.

* Rosa Magaly C. B. de Morais
Pediatra. Psiquiatra da infância e adolescência do Ambulatório de Ansiedade na Infância e Adolescência (ANSIA) do  Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (SEPIA) do IPq –HC-FMUSP.

** Artigo publicado originalmente em Cadernos da Ceppan. Revista de Transtornos Alimentares. Edição n.2, junho de 2008.

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