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O aprendizado das famílias com o Grupo Psicoeducativo CEPPAN.

Mariana Barini De Santis*

No primeiro semestre de 2011 realizamos na CEPPAN o “Grupo Psicoeducativo para Transtornos Alimentares” destinado a pais, familiares e cuidadores de pacientes com diagnóstico de anorexia e bulimia nervosas. O grupo tem por finalidade oferecer suporte e informações relacionadas aos transtornos alimentares e seus sintomas, assim como sobre aspectos psicodinâmicos e tratamentos.

A cada encontro, um especialista faz uma explanação sobre os aspectos dos transtornos alimentares dentro da sua área de conhecimento, e abre espaço aos presentes para indagações e reflexões. Os familiares que participaram dessa edição avaliaram que o Grupo Psicoeducativo proporcionou aquisição de informações e quebra de paradigmas errôneos que possuíam a respeito dos transtornos alimentares, tais como:

  • A doença não está relacionada exclusivamente a problemas familiares.
  • O adolescente com transtorno alimentar não restringe ou tem compulsão por vaidade, gula ou birra. Esse comportamento é sintoma da doença.
  • Não existe família perfeita. As famílias de forma geral têm conflitos, e as que possuem um dos seus membros com transtorno alimentar passam por dificuldades muito parecidas.
  • O transtorno alimentar é uma doença grave, precisa de tratamento específico e de longa duração.
  • O transtorno alimentar acomete pessoas de todas as classes sociais do sexo feminino e masculino.

A participação no Grupo Psicoeducativo, segundo seus depoimentos, também proporcionou acolhimento e o retorno do sentimento de pertencimento que haviam perdido.

O transtorno alimentar e o seu tratamento impõem mudanças na rotina que dificultam o convívio social, mas, além disso, citaram que os sentimentos como a culpa, impotência e vergonha também os levaram a preferir o isolamento.

Perceber isso foi muito importante para esses familiares que encontravam-se impedidos de buscar ajuda e apoio, presos a um ideal de perfeição, o da família perfeita com filhos perfeitos. O movimento dessas famílias, primeiro de afastamento e depois desejando participar do Grupo me levou a pensar em um mito, que permitiu associações que compartilho nesse pequeno artigo.

A caixa de Pandora:

Quando os deuses criaram a terra, incumbiram os irmãos Prometeu e Epimeteu de distribuir dádivas a todos os seres vivos que nela habitavam. Os titãs cumpriram a tarefa com muito cuidado, contudo, quando foram ofertar uma dádiva aos homens, perceberam que elas haviam acabado.

Muito preocupado Prometeu os presenteou com o fogo, mesmo tendo sido proibido por Zeus de fazê-lo, pois não queria deixá-los sem nada. Por essa atitude Prometeu foi preso para toda eternidade. Para não deixar seu irmão Epimeteu sozinho, os deuses ofereceram a ele Pandora em casamento, uma mulher muito bonita e inteligente.

Após o casamento Pandora foi morar na casa de Epimeteu, que logo a alertou para que não mexesse, em hipótese alguma, em uma caixa que guardava no canto da sala. Pandora controlou com muita força a sua curiosidade, e em respeito ao marido não abriu a caixa por muito tempo.

Um dia ela estava limpando a casa e chegou muito perto da caixa, quando ouviu uma voz que a chamava e lhe pedia ajuda. Mesmo tendo prometido ao marido que não abriria a caixa, não pode deixar aquele pedido de lado, pois os deuses haviam conferido a ela a bondade.

Pandora ajoelhou-se diante da caixa e ergueu ligeiramente a tampa, mas o movimento foi suficiente para que a caixa se escancarasse e dali saísse milhões de criaturas que atacaram Pandora e se foram pela janela, ganhando o mundo.

Quando Epimeteu chegou à sua casa e encontrou Pandora caída, entendeu o que havia acontecido. Correu para acudi-la e pedir-lhe desculpas, pois entendeu que deveria ter lhe explicado o que havia na caixa.

Quando os deuses lhe entregaram as dádivas para distribuir entre os seres vivos, ele separou algumas ruins como a tristeza, a doença, a miséria, o desespero, a raiva, a impotência e outras preocupações e as guardou numa caixa, pois assim, enquanto estivessem fechadas ali, não fariam mal a ninguém. Contudo sabia que não poderiam ficar trancadas para sempre, e que um dia sairiam dali, pois tais sentimentos fazem parte da criação, e queiramos ou não temos que suportá-los.

Nesse instante Pandora voltou a ouvir uma voz que vinha de dentro da caixa. Assustados, ela e Epimeteu aproximaram-se da caixa prevendo encontrar mais desgraça. Quando chegaram com os olhos bem perto viram uma criatura brilhante com asas douradas que os olhava com um sorriso.

_ Meu nome é Esperança, e não há por que me guardarem em uma caixa. Coloquem-me nos seus corações e ficarei com vocês para sempre. Enquanto tiverem esperança, não precisarão temer doenças, miséria nem desgraça, serão capazes de superar raiva, ódio, tristezas e desespero. Enquanto tiverem Esperança nada os derrotará.

Reflexões:

Prometeu foi castigado por oferecer aos homens um poder muito grande, que os tornaria ao mesmo tempo perigosos, pela onipotência, e frágeis, se acreditassem que prescindiam das outras criaturas. 
Epimeteu temia pela fragilidade das criaturas e buscando protegê-las isolou os conflitos em uma caixa já que não era capaz de extingui-los, mas isolar e extinguir não são a mesma coisa.

Assim como o casal Pandora e Epimeteu, as famílias muitas vezes guardam seus conflitos em uma caixa hermeticamente fechada, mas a caixa está lá, no meio da sala, e diariamente se tropeça nela.
Um dia algo faz com que a caixa se rompa trazendo à tona todos os conflitos que já estavam ali, no meio da sala.

E agora? O que será do meu filho? Será o fim da família? O casamento vai acabar? Não necessariamente. Se a família conseguir lidar com o fato de que seus membros não são detentores do fogo, do poder onipotente, e for capaz de reconhecer suas limitações e responsabilidades, a existência de problemas e conflitos poderá até mesmo fortalecer seus laços. Afinal, as dificuldades também fazem parte da existência e só resta lidar e aprender com elas. E porque não pedir ajuda se for necessário?

O tratamento dos transtornos alimentares exige das famílias e das equipes muita humildade, pois só é possível alcançar algum objetivo com a união de todos, cada qual com o seu conhecimento e a sua habilidade.

O Grupo Psicodinâmico representa bem isso, sendo composto por profissionais de áreas diferentes, incluindo a família no tratamento, prestigiando o convívio social e a troca de experiências e conhecimento.

Referencias:

COBELO, A. “A importância da inclusão da família no tratamento multidisciplinar dos Transtornos Alimentares na infância e adolescência”. In, WEINBERG, C. Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência – Uma visão Multidisciplinar. São Paulo: Sá Editora, 2008.p 115

NICOLETTI, Manoela; GONZAGA, Ana Paula; MODESTO, Sue Ellen Ferreira e  COBELO, Alicia Weisz. “Grupo psicoeducativo multifamiliar no tratamento dos transtornos alimentares na adolescência”. In,

WEINBERG, C. “Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência – Uma visão Multidisciplinar”. São Paulo: Sá Editora, 2008.

Kimmel, Eric A. Mitos Gregos recontados por Eric A. Kimme l; ilustrações Pep Montserrat: tradução Mônica Stahel - São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

*Psicóloga, especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela USP-SP e Psicopedagogia pela PUC-Campinas, psicoterapeuta individual e co-terapeuta grupal do programa Interdisciplinar de Atendimento, Ensino e Pesquisa dos Transtornos Alimentares na Infancia e Adolescência (PROTAD) do HC-FMUSP, associada à Associação de Psicoterapia Psicanalítica (APP) e membro efetivo da CEPPAN.

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